domingo, 18 de maio de 2014

Dia 19: 1976 - Geraes (Milton Nascimento)


Eu não estava querendo repetir artistas neste início do Disco de Hoje. Acontece que minha parceira colocou este disco do Milton Nascimento para tocar ontem, e daí não tive escolha, não havia como Geraes não ser o Disco de Hoje. Rasga do começo ao fim.

É curioso porque é um dos poucos álbuns do Miltão que não tem a maioria das músicas de sua composição. Temos composições de Nelson Ângelo, Tavinho Moura, Violeta Parra, Chico Buarque, Nelson Arraya, Ronaldo Bastos, Fernando Brant.

"Fazenda" é o retrato do interior de Minas Gerais (lembro da fazenda em Santa Isabel), com "água de beber, bica no quintal, sede de viver tudo, (...) e a meninada respirava vento até vir a noite e os velhos falavam coisas desta vida, (...) tios na varanda, jipe na estrada e o coração lá". "Volver a Los 17", na voz de Mercedes Sosa arrepia sempre, por sua letra e o arranjo vocal com o Miltão. "Menino" é psicodelia pura, aumentando gradualmente sua força, sua poesia, seu tom e seu ritmo, até se tornar insuportável e o Miltão fazer o que o ouvinte quer fazer, que é gritar e gritar e gritar.

"O Que Será (À Flor da Pele)", do e com Chico Buarque, tem neste álbum sua versão mais bonita e profunda. E voltamos ao interior de Minas com "Carro de Boi". "Caldera" é instrumental (até a voz é instrumental), muito indígena, com um toque flamenco, linda e empolgante, com seus solos de flauta andina. Ainda tem "Promessas de Sol", desta vez com sua letra cortante, "você me quer forte, e eu não sou forte mais (...)". "Lua Girou" é linda demais, "eu bem queria fazer um travesseiro dos seus braços", violão, percursão e as múltiplas vozes do Milton. Ainda tem a super alegre "Circo Marimbondo" que faz um contraste com a tristeza de "Minas Gerais".

E ouvindo, me lembrei de um papo com ilustres músicos e artistas de Belo Horizonte, que adoravam com todas as forças Dorival Caymmi (nada contra) e afirmavam que já não aguentavam o Milton por causa da repetição dos seus temas: carro de boi, estradas empoeiradas, fazenda, mineiridade. Só hoje percebo quanta bobagem, não tem como esgotar a mineiridade.

É um disco de ouvir do começo ao fim. Ouve aí no tubiu ou abaixe completo.