Mais um álbum não brasileiro no Disco de Hoje, mas justificativas sempre existem... Desta vez, poderia argumentar dizendo que tem cuíca, que tem chorinho, que algumas músicas foram gravadas no Brasil, que há a participação de músicos brasileiros... Mas a verdade é que acabo colocando aqui algumas coisas que me são apresentadas por pessoas maravilhosas e quero apresentar para outras pessoas maravilhosas...
Mayra Andrade é adorável e radiante. "Navega" é seu primeiro álbum, com a maioria das músicas em criolo caboverdiano, uma em francês... Em outros discos, ela ainda canta português e inglês... Acho que o que mais me encantou foi esta língua criola, parece que entendemos tudo, mas nada...
Começa com "Dimokránsa" (Democracia), linda, viola de chorinho, cuíca gritando uma música de protesto, falando da democracia torta, a democracia de mentiras... Linda letra, deu vontade de estudar a história de Cabo Verde e conhecer as pessoas citadas na música. Informação rápida e superficial: Cabo Verde conquistou sua independência de Portugal em 1975, apoiado por Cuba, e só em 1991 tiveram suas primeiras eleições. O pai dela lutou pela independência. Ela nasceu em Cuba por causa de complicações da gravidez, com recursos médicos mais avançados...
Gostei um montão de "Comme s’il en pleuvait", ritmo, francês, voz, sax... "Regasu" exalta o amor, aquele, de verdade, de pais. Parte o coração, linda demais...
Veja este e os outros discos da moça no site oficial. Não deixe de ouvir e adquirir o Disco de Hoje.
Te encontrei uma única vez... Hoje não tenho certeza de quem você acompanhava, se Zeca Baleiro ou Chico César. Creio que seja o Zeca, no Palácio das Artes, em 2002. Sei que qualquer um deles se tornou coadjuvante no próprio show, ofuscado por ti, tocando com o corpo inteiro, do dedão do pé até a ponta dos dreads naquele palco. Você não me viu, eu era só mais um jovem de cabelo de caracóis dançando alucinado grudado naquele palco de teatro, num dia em que poucos conseguiram permanecer sentados nos seus lugares...
Aquela que eu vi era a mulher mais bonita do mundo, tirando som com o corpo de um monte de coisas diferentes... Vestido vermelho, pernas de quem caminha na praia, musculosa pelos exercícios musicais com percursões nas pernas e bateria. Na época, eu era um pós adolescente de 19 anos, e tu uma mulher completa, com seus 32. Me apaixonei perdidamente. Fui atrás de você, re-devorando toda a obra do Chico César e te procurando nas percursões de cada música...
Treze anos depois, já havia guardado você naquele lugar especial das antigas paixões, que fica ali, faz parte de mim, mas não incomoda ninguém, é só mais um pedaço dos cacos... Hoje, te vi de novo, através do disco Projeto CRU. Te vi tocando tudo, com o coração e com o corpo inteiro, no mundo virtual e digital com Alfredo Bello (Dj Tudo) e Marcelo Monteiro. Te encontrei por acaso numa bilhetinho para o Alfredo Bello, neste disco maravilhoso e pontual. Por falar nisso, você tava muito bem acompanhada hein?
Escutei com carinho e cuidado, que belezura que vocês fizeram hein? Te vejo tocando o comecinho do "Africando" com aquele tamborzinho de baqueta curva, passando um montão de sentimento diferente a cada batida... Violinos para introduzir o baixão bem tocado do Bello e o sax do Marcelo...
Sei que "Africando" foi me africando, me empolgando cada vez mais, para me preparar para escutar "Xangô". Uma das únicas músicas cantadas e vocês trazem o Junio Barreto, esse guri bão que eu conheci também há alguns dias...
Mas eu gostei muito mesmo foi de "Caminho" em que você fica fazendo um dueto com a rabeca, depois com a flauta, depois com o baixo, e só dá você naquele ritmo indiano... Mas eu quero mesmo mostrar pros meus amigos o berimbau lindo demais que tu tocas em "Desassossego", que emenda na dançante "Maxixe"...
Aí vou ver como é que cê tá hoje... Vi que trocou de nome, e agora se chama Simone Sou, ainda mais bonita, bem brasileira, dizendo que és... Vi que se juntou àquele maluco do Guilherme Kastrup em um duo, e tá fazendo uma sonzêra instrumental indescritível. Onde já se viu fazer duo de percussionista? Só tu mesmo Simone. Ainda mais agora com o Benjamin Taubkin... E tu ainda abrilhantou discos do Otto, do Junio Barreto e até da re-edição recente dos Mutantes... Vi até que tem disco solo e que está até cantando, mas ainda não consegui ouvir.
Mas só consegui saber das belezuras que tu tem tocado... De você mesmo eu não achei nada, se está casada ou solteira, se gosta de meninos ou meninas, se tem filhos, onde tá morando... Ai, eu gostava tanto daqueles rasta louco de lindos, e tu tirou agora, bem um pouquinho antes de eu te reencontrar. Mas tu tá mais bunita que nunca.
Eu tô muito bem, feliz, apaixonado, completo e tranquilo.
Um beijo cheio de carinho e um abraço apertado e cheio de energia boa,
Tiago
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Curtam aí um pouquinho no tube ou pegue O Disco de Hoje.
O Disco de Hoje traz mais uma da série das mocinhas paulistanas de canto fácil, suave e apaixonante. Este é o primeiro album solo da Tita Lima, com muitas composições suas e grandes parceiros como Apollo 9 e Cyro Bittencourt. Maravilhosamente arranjado e muito bem acompanhada, o que era de se esperar da filha do Liminha, ex mutantes e um dos produtores mais badalados do Brasil.
Temos algumas músicas que não são dela, como uma surpreendente releitura de "Dias de Janeiro" (Otto), que pouco se parece com a versão original, e que está belíssima.
Adoro o balanço de "Catatônica". Mas uma das que mais me encanta, em letra e arranjo, é a bossinha "Maremorso", bem como o jogo de palavras do título da música.
"Traz um alívio" não alivia, machuca. "Podia até me equilibrar. Mas quanto mais subia, mas frio sentia. De novo tudo vira vício. Eu tava atrás do desapego, até você chegar."
O disco começa e termina em alto astral, com "A conta do Samba" no início, "Molho Ble" e uma versão animadíssima do "Essa moça tá diferente" do Chico fechando.
Dá uma olhada no clipe aí do youtube, ou adquira já O Disco de Hoje.
O Disco de Hoje, segundo os entendidos, mistura rock, funk, bossa nova, baião, samba de coco, jaz, trip hop e dub, formando ritmos como o agrestewerk cangaço-gangsta e drum'n'roots, seja lá o que isso for... Só sei que foi um disco trabalhado por anos, com muito eletrônico, sopros, zabumba e um vocal feminino delicioso de uma tal de Kátia. Um som muito bom, que veio da Paraíba, deste garoto que se chamou de Chico Correa em homenagem ao grande Chick Corea, mestre e pioneiro das fusões.
Chama a minha atenção a música "Bossinha", "Terra", sax, tranquilidade, eletrônico, baixo e bateria bem marcados. A música que não quer sair do repeat é a excelente "Lele". "Baião Lo Fi" é exatamente o que o nome da música diz.
Enfim, impossível descrever em palavras estes sons. Segundo os próprios, "Chico Correa & Eletronic Band é a música nômade nordestina desta década, a viver de porta em porta com a mochila na mão."
Arnaldo, espero que este você não conheça...
Veja o lindo videoclipe de Lelê ou adquira imediatamente O Disco de Hoje.
O disco de hoje é sobre a metalinguagem musical, onde o baixista do grupo Hermeto Pascoal, Itiberê Zwarg, fez a gravação das músicas do livro escrito pelo mestre (Calendário do Som - que apresenta uma composição por dia, durante um ano). Viva o calendário do som!
O disco foi gravado com o seu grupo chamado "Itiberê Orquestra e Família" onde fazem gravações desde 2001, a exemplo do também genial disco Pedra do Espia.
O Calendário do som foi gravado em dois discos, (disco 1 e 2), escute e tire você mesmo suas conclusões.
Pra quem não é muito ligado à música instrumental, talvez seja necessário escutar mais de uma vez, para tentar sentir um pouco o som. Como o próprio Hermeto disse uma vez em um de seus shows:
"Escutem essa que eu vou fazer agora!"
"Mas não é escutar com os ouvidos, é escutar com a Alma!"
Atualmente o grupo chama-se Itiberê Zwarg e Grupo, mas mantém a mesma linha de musica brasileira instrumental e super bem arranjada, fazendo o que denominam a "prática da música universal" já bem apregoado pelo mestre e pode ser sumarizado pela sua companheira Aline Morena.
Fazia bastante tempo que não ouvia o Alma do Gato, banda que foi crucial na minha trajetória e formação Cassineira. A banda de jazz fusionado a la brasileira tinha como coração os guitarristas Carlos Garcia (base) e Maurício Cunha (solo). Acompanhei a trajetória da banda desde os tempos em que se chamavam "Piranhas Verdes" (!?), com shows no extinto Floresta. Devo a eles o excepcional show que fez do meu casamento uma das melhores festas que o Cassino já viu.
No Disco de Hoje, eles estão muito bem acompanhados por dois grandes músicos riograndinos, Edinho Galhardi (bateria) e Gilnei Oliveira (baixo). Esta gravação ao vivo (o que traz alguns probleminhas técnicos de gravação) no Teatro Municipal de Rio Grande começa bem tranquila com "Só passando na chuva", vassourinha na bateria, guitarra solo bem limpinha (como marca do Maurício). Depois temos uma série de excelentes músicas compostas com inspiração em grandes nomes do jazz: "Miles", "Mr. Montgomery", "The Monks", "Bola Sete", "Sabog" (Gabor Szabo?). Uma história interessante sobre "Bola Sete" (uma das minhas preferidas, com seu ritmo todo quebrado) é que eu sempre gritava nos shows pedindo esta música, mas nem todos os bateristas podiam tocá-la.
"RS-734" mistura samba com viradas quebradas de jazz. Temos ainda "Joana", neste disco apenas instrumental, mas que tem uma letra muito divertida. Para fechar o show, temos a empolgante "Eric Blues", que faz o ouvinte voltar para casa, tranquilo, com a alma lavada de boa música.
Infelizmente, a banda foi extinta há alguns anos, deixando como legado algumas gravações de shows, na forma de audio e vídeo (DVD), bem difíceis (impossíveis!) de encontrar. Mas tenho a esperança de, quem sabe um dia, acontecer um "Reunion" do Alma do Gato...
Assista um pouquinho no tubius ou aprecie o Disco de Hoje. Ouça do começo ao fim!
Como o título do album mesmo diz, o Disco de Hoje é super mega alegrinho. "Super Duper" é o segundo album do quarteto "Trash Pour 4" um quarteto paulista que baseia sua produção na reciclagem de grandes sucessos nacionais e internacionais. Portanto, o Disco de Hoje é só de "covers"? Não sei se podemos chamar de "cover" a completa transformação descompromissada que o "Trash Pour 4" faz nas músicas. E com execução instrumental bonita e bem arranjada, com baixo, teclado, bandolim, violino, guitarra e uma baterista (mulher, oba!), com o vocal suave de Natália Mallo.
E a seleção musical... "Lithium" do Nirvana, ganha uma versão num chorinho, bem calminho, bem gostoso de escutar. "Whats Up" do Guns N' Roses super prá cima. O que mais me impressiona foi o que fizeram com "Geni e o Zepelin", onde já se viu cantar "ela dominou seu asco, ele fez tanta sujeira, lambuzou-se a noite inteira até ficar saciado" de uma forma tão alegre? A música acaba contradizendo a letra, e parece cantar sob o ponto de vista dos cidadãos do "cidade", não da "Geni", como eu estava acostumado pelo Chico Buarque. Temos dois grandes sucessos da "Madonna", "Like a Virgin" e "Careless Whisper", "Fala" do "Secos e Molhados" e "Is This Love" do Bob Marley totalmente reconstruídos. Tem também umas três músicas que eu acho bem chatas, mas o disco vale a pena.
Se ler o capítulo anterior já confunde o cérebro (como juntar tudo isso num Álbum?), imagina a confusão da forma como é tocada?
Então, entubia o Nirvana aí, ou abaixe o Disco de Hoje.