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segunda-feira, 25 de maio de 2015

Dia 74: 2010 - Cinco Sentidos (Mateus Aleluia)


"É o ariano que ignora o africano, ou é o africano que ignora o ariano?", pergunta uma bela música do Mundo Livre SA. Na música, não tenho dúvida... Os negros criaram tudo: jazz, reggae, blues, rock, funk, soul, samba, rap, chorinho... Tudo.

O baiano Mateus Aleluia era de um grupo negro vocal chamado "Os Tincoãs", famosos nas décadas de 60 e 70. Conheci agora através do excelente Disco de Hoje, chamado "Cinco Sentidos", seu primeiro disco solo, produzido aos 66 anos. A voz de trovão do negão me lembra o mineiro Marku Ribas, que já pintou por aqui. A sua companheira neste disco, Soraia Oliveira, me lembra muito a Gal nos tempos áureos.

"Amor Cinza" é lindona demais, toca bem fundo:
Não aceito quando dizem que o fim é cinza
Se eu vejo cinza como um início em cor
Quando tudo finda, dizem, virou cinza
Equívoco pois cinza cura, poesia eu sou
Vamos celebrar, o amor há de renascer das cinzas
Vamos festejar o cinza com amor
 "Quem guiou a cega" gruda na cabeça de uma forma impressionante... Meu pequeno de 3 anos ficou cantando sem parar... "Palavra que reza" está completinha, pandeiro, cuíca, trompete, a coisa mais bunita...

Mergulha fundo, volta prás raízes de todos nós! Alimenta o africano em você...

Dá uma olhada no quanto este senhor é lindo tocando "Amor Cinza" aí no tubius ou ouça o disco inteiro ali embaixo. E não deixe de adquirir O Disco de Hoje!



sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Dia 54: 2010 - Nos Quintais do Mundo (Dj Tudo & Gente de Todo Lugar)

O Disco de Hoje te apresenta o DJ Tudo, ou Alfredo Bello, ou Luiz Alfredo Coutinho Souto, é um grande artesão musical, especializado em costurar com criatividade e perfeição colchas de retalhos musicais. Um verdadeiro patchworker! Ele apareceu de relance aqui no Disco de Hoje no disco do Chico Corrêa, com a participação em Magangá. 

Neste album, "Nos quintais do Mundo" ou "My Community is Humanity", ele junta gente de todo lugar, gravando trechos separadamente, e produz uma verdadeira obra-prima de viola caipira, música africana, maracatu, forró, congado, bumba meu boi, reisado, repente e um montão de outras coisas. Realmente multicultural inclassificável.

Não vou me dar ao trabalho de chamar atenção à músicas específicas, porque o álbum é bom do começo ao fim e deve ser escutado na íntegra. Apenas chamo atenção para que o ouvinte dê uma breve navegada no site do produtor (http://www.selomundomelhor.org/), pois ali é possível ver vídeos de cada artista gravando sozinho as suas partes de cada música, e entender melhor os ingredientes utilizados na receita do disco. Ali também pode ser baixado gratuitamente as músicas deste disco, bem como seus outros trabalhos.

Deguste aí no tubius a versão ao vivo de "Baque Forte", a primeira música do album, ou adquira urgentemente O Disco de Hoje



sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Dia 52: 2010 - Calavera (Guizado)


O Disco de Hoje é do trompetista Guilherme "Guizado" Mendonça, que junta eletrônico, jazz, batuques, manguebeat e rock neste genial trabalho. Alguns percebem claramente uma influência do Miles Davis em Bitches Brew (guardadas as devidas proporções), trompete gritando com eletrônico e rock, mas com a improvisação do jazz. Mas de fato o cara é muito bom. Seu trompete está presente nos últimos trabalhos do Nação Zumbi, Céu, Elza Soares, Maquinado, Curumim, entre outros. Mas nos seus discos solos que ele consegue se soltar e mostrar a que veio. "Calavera" tá bom de mais, bem arranjado, bem acompanhado.

Certamente, você não vai gostar na primeira ouvida. Estranho, desfocado, um tanto barulhento, perturbador. Ouça de novo, com mais carinho, com mais atenção. Satisfação garantida ou o seu dinheiro de volta.

"Girando" tem diversas transições, parece um monte de músicas fundidas, sobre uma letra onírica e bateria frenética. "Vendaval" já é mais suave, gostosa de ouvir, relaxante. "Asfalto Quente" e "Mais Além" já têm mais percursão e um estilo mais próximo dos novos trabalhos do Nação Zumbi. A música que dá nome ao disco, "Calavera" está realmente genial. "Maya" lembra não o Bitches Brew, mas o "Tributo to Jack Johnson".

Um gostinho de "Mais além", uma das minhas preferidas, no tubius ou adquira já O Disco de Hoje.

domingo, 27 de abril de 2014

Dia 7: 2010 - 4 Loas (Marku Ribas)


O Disco de Hoje vem de Minas, porque é bão dimais e já faz um tempão (quase 6 dias) que eu não coloco aqui um disco da terrinha. Apesar de você provavelmente não conhecer, o Marku Ribas tem uma longa trajetória, com seu primeiro disco por volta de 1973 e gravações com grandes nomes como Mick Jagger, Chico Buarque, Arnaldo Antunes, Tim Maia e muitos outros. Ele já apareceu aqui no Disco do Dia 4.

Me lembro de um show que fui dele em um comício do Lula, em 1989, nos saudosos tempos em que os músicos não eram contratados para shows em comícios, e sim tocavam por acreditar na causa (nos saudosos tempos que partidos tinham "causa"). Se eu não me engano, ele inclusive ficou lá em casa.

Para mim, 4 Loas, que é seu último álbum, é sua obra-prima. Como definir este disco? Samba rock? Jazz? Reggae? Na verdade acho que a melhor definição é black music. Negro, de corpo, alma e som, nunca se limitou ao enquadramento dos estilos musicais. Voz poderosa e marcante, ótimo compositor, com influências do rock, samba, ritmos africanos, soul, congado e um montão de outras coisas. Morreu em 2013 sem grande reconhecimento, quase anônimo fora do círculo musical de Minas Gerais.

O disco é excelente, do começo ao fim, vibrante, empolgante e dançante. "Altas Horas" é uma mistura de samba e bossa, muito prá cima, guitarras limpas e lindas, sopros, do bom e do melhor. "Bervely Help" é rock'n'roll todo quebrado. Um dos pontos altos do disco é "O Mar Não Tem Cabelo", com um baixo marcante, bateria, sopros, guitarras integradas em ritmo que vem da alma com uma letra muito legal:"eu sei que é duro amar alguém que não ama você, pior ainda é não ter mais um amor prá se esquecer". Duvido que você escute sem se balançar.

Este eu não encontrei completo no youtube, mas dá uma degustada aí em uma música. Tenho certeza de que você leitor é espertinho o bastante para encontrar o disco completo para abaixar, quem sabe aqui?


quarta-feira, 23 de abril de 2014

Dia 3: 2010 - Mafaro (André Abujamra)


O Disco de Hoje é difícil de "digerir", você provavelmente não vai gostar (até hoje não consegui fazer minha companheira gostar). Sempre brinquei que é muito mais fácil gostar de um sertanejo qualquer do que de Hermeto Pascoal. O sertanejo se parece com o que nos é bombardeado diariamente, você escuta uma vez e já sabe de cor, é previsível, digerível. O Hermeto você vai ter que ouvir várias vezes, mudar seu modo de ouvir, mudar o dia, o ambiente, a companhia, acostumar seu ouvido. Aí sim, com força de vontade e insistência, talvez você goste.

Voltemos ao André Abujamra, que é um cara com uma longa e multifacetada trajetória. Ator, cantor, compositor, multi-instrumentista, poeta, humorista. Era o líder da banda Karnak que fazia uma misturança entre 1992 e 2002, que vale a pena ouvir e provavelmente ainda vai ter um Disco de Hoje.

Este disco, segundo o próprio Abujamra, coloca música brasileira junto com ritmos dos bálcãs, africanos, indianos, rock e latinos que ele "absorveu como uma esponja" em suas viagens. Para mim, soa como uma orgia verborrágica e musical, com uma nova surpresa a cada música.

Começa com "Origem", música que, para mim, é ótima para pedalar, subindo a média de velocidade com o seu ritmo frenético de sopros e bateria. "Imaginação" aponta pensamentos de certo modo bizarros e é conclusivo: "o mundo de dentro da gente é maior do que o mundo de fora da gente".

"Lexotan" (com participação de Zeca Baleiro) brinca dizendo que "é mais fácil ser triste que alegre". "A pedra tem vida" é uma das minhas preferidas e tem uma poesia linda e profunda, apontando a beleza de pequenos detalhes (existentes ou não) e mostrando que a "beleza é o que está atrás do olhar", sempre com o mesmo trecho de sopros se repetindo incansável.

E o ritmo do disco vai aumentando até ficar alucinante, com exceção de "Tem luz na cauda da flecha", que é um reggae bem gostoso e um intervalo para respirar em "Logun Edé".

Depois de toda a loucura, temos um alívio em "Duvião" e a lindíssima e relaxante "Mafaro", que trazem um alívio. Este é um tipo de obra que eu gosto, que alterna entre músicas azucrinantes e aliviantes (uma fórmula comum em Arnaldo Antunes), pois depois de ser incomodado por uma música barulhenta e disforme, a música tranquila se torna ainda mais bela e apreciável.

Degusta aí!