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quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Dia 84: 2004 - Junio Barreto (Junio Barreto)


Já faz tempo que o Junio Barreto foi O Disco de Hoje, entretanto nunca foi postado... O pernambucano de Caruaru lançou este disco depois de duas décadas de carreira. Amigo pessoal do Otto, teve algumas músicas gravadas por grandes nomes como Lenine e Gal Costa (Santana) e Nação Zumbi (Toda surdez será castigada).

Depois desse, lançou um EP em 2008, e recentemente o excelente "Setembro", de 2011.

Disco bom, do começo ao fim, letrista inspirado, músicas bem arranjadas, gostosas de ouvir... De cara, começa com "Qualé mago", excelente bossinha eletro ("andar descalço, quando cedo chegar (...) porque ter muito é ter não, por não ter jeito de vez") e a divertidíssima "Se vê que vai cair deita de vez".

A minha preferida é realmente "Santana", que na minha singela opinião é melhor do que a versão do mestre Lenine. 
"A nossa santa padroeira chorou sangue,
Chorou sangue,
Chorou sangue: era Deus e beleza.
Despego meu;
Quem girou a moenda partiu.
Na pressa o rosário quebrou.
Chorou, ah, chorou.
Louveira santa, desata o apuro,
Leve e tanto, sempre sido só;
Tange solto quebrado, quebrado,
Claro carmo, nossa sede, obá."

A instrumental "Passeio" é algo que vale muito à pena ouvir, me leva à tranquilidade de um dia alegre e ensolarado.

Te abre e sinta "Santana" aí no tubius, de chorar. Não deixe de prestar atenção no baixo nervoso do DJ Tudo (Alfredo Bello), que já apareceu aqui diversas vezes. Escute o disco no soundcloud e se gostar adquira já O Disco de Hoje para agregar à sua coleção.





quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Dia 83: 2003 - Fuloresta do Samba (Siba)

O disco de hoje começa com os sons marcantes das cirandas e dos maracatus de baque solto.
Siba é um multi instrumentista, mais conhecido pela rabeca que toca e por seus baques vocais afiados, desde a banda Mestre Ambrósio (que já desfilou por aqui no "O disco de hoje" também).

O som desse disco vem dos registros da zona da mata pernanmbucana e traz à tona a simplicidade complexa nos instrumentos. O maracatu rural geralmente é feito com um conjunto de metais (clarinete, saxofone, trombone, corneta ou pistom), e a percussão que é formada normalmente por uma única caixa ou tarol, surdo, ganzá, chocalhos e a porca (uma cuíca com som grave).

Na primeira música siba apresenta a Fuloresta, instroduzindo os desvisados ao seu universo.

O baile segue e fica animado já na terceira música Caluanda, apresentando essa linda ciranda, que dá vontade de sair bailando junto.
Acelerando a coisa, os maracatus rurais acelerados das músicas Trinceiras da Fuloresta e de Poeta Sambador, deixam o ouvinte pensativo e com vontade de sambar os maracatus rurais também!

Vale à pena escutar os discos do Siba, que em breve devo trazê-los aqui novamente. Genial!

Todas as obras do Siba estão disponíveis para download no site dele (pega aí).
Ou escuta aí na "SomNuvem"

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Dia 80: 2015 - Carbono (Lenine)


O Disco de Hoje traz novamente o mestre Lenine, que parece cada vez mais engajado com a educação ambiental através da música. Temas que já apareciam com força no maravilhoso Labiata, são recorrentes em "Carbono", como poluição, derrames de óleo, incêndio, falta de água, aquecimento global. Então, mais um motivo para amar o Lenine, o engajamento. Outro motivo que para mim fica evidente no Disco de Hoje, a renovação a cada novo álbum, um Lenine sempre diferente, sempre moderno, sempre à frente.

Começo com "Cupim de ferro", a primeira composição conjunta entre Lenine e Nação Zumbi, uma belezura só. Composta em conjunto, traz os riffes e ritmo do Nação, letra e balanço do Lenine. Em entrevista, Lenine conta que perguntou como era o processo de criação do Nação, e se encaixou nele...

"Quem leva a vida sou eu", desconstrói "Deixa a vida me levar" do Zeca Pagodinho...  
"Não deixo a vida me levar
Levo o que vale do viver
Um sorriso pleno, um amor sereno
E tudo o que o tempo me der"

"Castanho" abre o disco com uma viola, tranquila, bem arranjada. Quando vai pro rock, em "Grafite diamante" e "Undo" (excelente instrumental), vai com guitarras ainda mais pesadas do que em "Labiata". A guitarra e distorções talvez sejam uma marca da fusão Lenine/Tostoi, guitarrista, produtor e responsável pelos eletrônicos e sintetizadores de "Labiata", que acompanha Lenine há alguns anos...

Uma obra-prima "Quede Água", que explica tudo.
"O lucro a curto prazo, o corte raso
O agrotóxico, o negócio
A grana a qualquer preço, petro-gaso
Carbo-combustível fóssil
O esgoto de carbono a céu aberto
Na atmosfera, no alto
O rio enterrado e encoberto
Por cimento e por aslfalto
Quede água? Quede água?"
Ouve aí e adquira já O Disco de Hoje.

domingo, 17 de maio de 2015

Dia 71: 2011 - Lira (José Paes Lira "Lirinha")

O Disco de Hoje me fez refletir, o que é que Recife tem? Tem Chico Science, tem Nação Zumbi, tem Mundo Livre S.A, tem Otto... Caio no erro de pensar que são apenas frutos da efevercência do manguebeat do começo dos anos 90. Com um pouco mais de cuidado, constato que uma revolução da importância do manguebeat não nasce do zero. Vamos pesquisar... O que mais Pernambuco tem? Tem Luiz Gonzaga, tem Alceu Valença, tem Geraldo Azevedo, Azulão, Bezerra da Silva, Lula Cortês, tem o Lenine, que alguns acham que surgiu do nada por volta do ano 2000, na novela da globo. O que mais? Tem Karina Buhr, tem Siba, tem Cordel do Fogo Encantado.

Recife tem algo especial, tem uma inspiração, uma dor... Tem o mangue. Tem público, tem gente pulando, gritando, dançando, sentindo a música. Pernambuco tem o sertão. Daí em quase chego lá... Pernambuco tem o maracatu, com seus sons, símbolos e sincretismo. Tento imaginar o que seria da música brasileira sem Pernambuco. A ausência deste pequeno estado causaria um rombo considerável e irreversível na música do mundo.

O Disco de Hoje é o primeiro disco solo do Lirinha, alma do extinto Cordel do Fogo Encantado. Tive a oportunidade de vê-los ao vivo em Belo Horizonte em 2002 e só me vem uma coisa à memória: transe coletivo. Não era uma banda, eram feiticeiros. 

Mas não ouça Lira esperando cordel... Mais maduro, mais dor, mais guitarras, menos percussões, mais psicodelia... Tem a produção e bateria do Pupillo (Nação Zumbi) e teclados do Bactéria (Mundo Livre S.A.). Só isso já merece atenção. Lira ainda tem a participação superespecial do Otto, Ângela Ro Ro, Lula Cortês e Fernando Catatau.

Vamo logo para algumas faixas. Fui apresentado à excelente "Ela vai dançar", que me arrebatou com força. Me fez pensar nas inúmeras festas dançantes de um homem só que já promovi em casa, provavelmente em alguma quarta-feira.

"Noite fria", um chorinho com cavaquinho, trompete cortante, e um trio de vozes femininas. Uma viagem pelo mundo, preso ao mesmo amor, à mesma melancolia. "Valete" traz a voz de Ângela Roro e Otto, excelente música, excelente letra e arranjos, distorcendo a guitarra acentuando a dor da poesia.

Veja o lindo clipe em animação de "Ela vai dançar" e, depois mergulhe no Disco de Hoje.



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terça-feira, 23 de setembro de 2014

Dia 57: 2001 Chão (Lenine)


Um pouco mais do mestre Lenine, que retorna aqui no Disco de Hoje.
Co-produzido com seu filho Bruno Giorgi, mantém linhas musicais e rítmicas, se sequer tocar em uma pele de tambor, nem bateria.

Disco genial, cheio de samplers e efeitos eletrônicos, mas balanceado com as alfinetadas da voz do Lenine.
A presença marcante de elementos do cotidiano (a entrada com o andar sobre as britas) que me faz lembrar alguém que se dá conta de que esqueceu algo, logo após sair de casa e retorna numa corrida... isso segue em loop até que vem ele!
Chão....
Chega perto do céu
Quando você levanta a cabeça e tira o chapéu
Como quem saudando o ouvinte!
Lenine é Genial!

e a segunda faixa segue para "Se não for amor Eu Cegue", com o coração batendo num fundo durante toda a música, e o baixo fazendo a cama, para a guitarra virar uma bateria eletrônica, com adornos percussivos, dando o toque brasil na Música concreta que lenine traz aqui nesse disco.

O disco segue até que chega em "Envergo mais não quebro" que é pra quebrar tudo!!
... escuta logo aí!
Dolôdi dele no link

Uma amostrinha de "Chão"



quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Dia 55: 2001 - Terceiro Samba (Mestre Ambrósio)

O Disco de hoje vem de Pernambuco, da já extinta banda Mestre Ambrósio.

Terceiro Samba é o último disco produzido pela banda, onde a rabeca e a percussão são o fio condutor de toda a musicalidade desse disco.
Os maracatus (tanto de baque solto, baque virado e rural) o coco e samba entram de forma natural com letras poéticas que envolvem quem quiser escutar.

As músicas do disco são mescladas em tons introspectivos a animações, com o marcado regionalismo pernambucano.

Para mim, é muito marcante o maracatu "Sóis", onde o verso:
" Há bem mais sóis
Crestando entre as estrelas !"

O maracatu de baque virado ("Bojo da macaíba") fala do som que é proveniente da Alfaia com o bojo feito da árvore macaíba, que mantém o instrumento muito pesado, mas com um som incrivelmente distinto das outras alfaias.

Disco imprescindível em toda coleção musical.(AQUI)
Aproveitem!!


sexta-feira, 9 de maio de 2014

Dia 16: 1997 - O Dia Em Que Faremos Contato (Lenine)


O Disco de Hoje é de outro planeta, ouvi dando uma corridinha e me re-apaixonei por ele. Meu ritmo subia e descia, acompanhando as excelentes músicas dele. O Lenine é, na minha opinião, um dos caras da "velha guarda" no Brasil que mais está produzindo coisa boa atualmente. 

Por que velha guarda? O Lenine só explodiu para a maior parte das pessoas por volta do ano 2000, com o album "Na Pressão", trilha sonora de novela. Mas tem uma longa carreira, com o primeiro disco lançado em 1983, em parceria com Lula Queiroga (um disco meio estranho na minha opinião). Daí ficou 11 anos sem lançar um disco, voltando a gravar em 1994 o encantador "Olho de Peixe", disco em parceria com Marcos Suzano. E daí prá frente, só coisa boa, mas eu sou suspeito para falar, porque realmente AMO a música do Lenine.

Vamos para o "O Dia em que Faremos Contato". Lançado em 1997, deu uma boa arejada na fraca MPB da década de 90, injetou uma energia que estava faltando. É o disco que tem uma das músicas mais queridas (e populares) do Lenine, "Hoje Eu Quero Sair Só". Tem "Candeeiro Encantado" que revisita a história de Lampião, contada de várias formas em muitas músicas brasileiras. Uma que eu gosto muito, pela viagem da letra, música única com o pandeiro inconfundível do Suzano é "O Dia Em Que Faremos Contato", que parece ter uma ligação de tema com "O Marco Marciano" que tem influência musical clara dos repentistas nordestinos. "Dois Olhos Negros" é excelente, guitarra forte, ritmo marcante.

Aí vai o clipe de "Dois Olhos Negros". Talvez você queira o disco completo.


terça-feira, 6 de maio de 2014

Dia 14: 2003 - Sem Gravidade (Otto)



O Disco de Hoje também é fruto do mangue beat. Otto é Pernambucano e viveu em Recife quando Chico Science ainda era vivo fazia parte dos primeiros discos do Nação Zumbi e do Mundo Livre S/A, como percursionista. Se lançou na carreira solo por volta de 1997, misturando ritmos regionais, nacionais, muita percursão e, atualmente, música eletrônica.

Adoro os discos do cara e o seu show é de pular do começo ao fim. O Disco de Hoje tem algumas músicas que o alavancaram para o sucesso, como "Lavanda" e a excelente "Tento Entender", que tem uma bateria marcante e quebrada, com um riff de guitarra repetitivo e envolvente. "Prá Ser Só Minha Mulher" é o que há de mais brega possível, assim como "História de Fogo", de doer o coração, tanto letra quanto música. Tipo de música de um artista que não tem medo dos rótulos e não se prende a um estilo. Ainda tem "Amarelo Manga", de abertura do fortíssimo filme homônimo.

"Imaginar a vida" tem uma metáfora e poesias lindas e apaixonantes, uma das minhas músicas preferidas do Otto. O disco é bem variável, com músicas de diversos estilos.

Podes ouvir uma das músicas ali embaixo, ou abaixar o disco todo, que vale a pena.


sexta-feira, 25 de abril de 2014

Dia 5: 1996 - Afrociberdelia (Chico Science e Nação Zumbi)

O Disco de Hoje é foda. Recém re-lançado em vinil 180 gramas, emoção diferente. Sopros, tambores de maracatu, berimbaus, guitarras distorcidas e baixo poderoso do começo ao fim, tudo isso junto com a voz única e poesias enxarcadas de lama de mangue do Chico Science. 

Este disco deve ser ouvido para aumentar a sua velocidade média em uma corrida ou pedalada, para alguma festa bem dançante ou para levantar o seu ânimo na manhã de segunda-feira, de preferência bem alto.

Do Chico Science eu só posso dizer que morreu cedo demais e só teve tempo de lançar dois discos: "Da lama ao caos" (1994) e Afrociberdelia (1996). Em compensação, deixou algum material gravado, o que possibilitou o lançamento de um disco póstumo (CSNZ) e um legado mais importante, que foi o estilo e movimento manguebeat e a inserção de Recife no cenário musical brasileiro, o que vem rendendo frutos até hoje. Otto, Nação Zumbi (que segue fazendo ótima música, mesmo sem o Chico) e Mundo Livre S/A são alguns dos frutos deste movimento.

Na minha humilde opinião, depois da grande produtividade do (pop)rock nacional dos anos 80 (muitas bandas, nada de muito novo), o Nação Zumbi veio no início dos anos 90 injetar sangue novo no rock nacional, criando um estilo musical sem precedentes. E olha que é difícil criar algo novo, depois de tudo que foi lançado na música mundial.

Taí um disco que eu não vou conseguir descrever, só ouvindo mesmo. Chamo atenção para "Maracatu Atômico", regravação da música de Jorge Mautner de 1974 e "Quilombo Groove", instrumental de arrepiar.

"Deixar que os fatos sejam fatos naturalmente, sem que sejam forjados para acontecer" é a frase de transição para o início de "Sobremesa", que tem marcação forte de tambores e o baixão dominando. "Baião Ambiental" é ótimo para dançar um forró a dois. E "Sangue de Bairro" é tão pesado que dá medo: "quando degolaram minha cabeça passei mais de 2 minutos vendo meu corpo tremendo, e não sabia o que fazer, morrer, viver." "Criança de Domingo" alivia depois desta pressão.


Se não conhece, prepare-se para o novo. Se já conhece, re-ouve.